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Física
Tópicos de Física resumidos


Radioatividade

Da descoberta às aplicações

Por Lucas Souza e Silva - lucas_kajuru@hotmail.com

1. INTRODUÇÃO

Muitas vezes, o conceito da radioatividade é deturpado pela sociedade em detrimento a tragédias do passado. Ao mencionar esse termo, retoma a memória de todos os noticiários sobre acidentes, mortes e cânceres. Além dessa associação de idéias negativas, é natural que as pessoas logo condenem qualquer prática realizada nessa perspectiva.

Assim, com o objetivo de discutir o conceito de radioatividade, este trabalho apresenta as facetas do tema: apesar de discorrer sobre os aspectos negativos, também visa mostrar suas vantagens, aplicações, desenvolvimento e também como é utilizado para ajudar as pessoas, seja na medicina, seja na engenharia.

Conforme tudo apresentado anteriormente, tem-se como meta esclarecer que o processo da radioatividade é um processo natural, o qual envolve grande quantidade de energia e que se o homem não for extremamente rigoroso com normas e técnicas adotados, poderá nos levar novamente ao passado, com verdadeiros desastres.

Nesse contexto, é válido ressaltar que graças ao avanço desse setor, muitas pessoas também foram salvas, muitos diagnósticos precoces foram feitos. Na tentativa de desvendar mitos, e esclarecer conceitos, esse trabalho aborda a radioatividade, desde sua descoberta até suas aplicações.

O texto deste trabalho se organiza na seguinte sequência: a seção 2 traz o conceito de radioatividade. A seção 3 apresenta o histórico das descobertas relacionadas à radioatividade. A seção 4 mostra algumas aplicações dos conceitos em questão, na indústria, na medicina e nas pesquisas científicas. A seção 5 traz alguns cuidados que se deve ter com a utilização da radioatividade, como na eliminação de resíduos e para evitar acidentes. A seção 6 apresenta dois grandes acidentes relacionados ao uso indevido da radioatividade e finalmente, na seção 7, discute-se a interação entre a radioatividade e a humanidade.

2. DEFINIÇÃO DE RADIOATIVIDADE

Toda a matéria que constitui o universo é composta por rearranjo de átomos, os quais são integrados por prótons, nêutrons e elétrons. A diferença quantitativa dos elementos integradores dos átomos é o que confere a cada material, características físico-químicas distintas que caracterizam sua singularidade. Todavia, um elemento pode se apresentar de diversas formas na natureza, mas com comportamento químico idêntico. Um exemplo disso são os isótopos, cujo conceito se refere à característica de átomos apresentarem o mesmo número de prótons, mas com diferente número de nêutrons, tornando-os instáveis.

Essa instabilidade pode ser definida como excesso de energia acumulada pelo átomo, e que pode ser liberada como radiação. Assim, o átomo ao perder energia se torna mais estável (processo denominado decaimento). Alguns átomos liberam partículas, alterando conseqüentemente as estruturas químicas do mesmo.

Logo, átomos que decaem, e emitem radiação são denominados radioativos. Esse processo é definido como nuclear, uma vez que ocorre no núcleo, região central do átomo, onde se localizam prótons e nêutrons.
Portanto radioatividade é um processo natural no qual o átomo libera energia a fim de se tornar estável. O processo leva a transmutação de elementos químicos e a liberação de energia nuclear.

Faz-se fundamental destacar que existe radioatividade natural e artificial. Na natural, ela não é influenciada por alterações no ambiente.

3. HISTÓRICO

Em 1895, o físico Wilhelm Conrad Röntgen realizou a descoberta dos raios-X a qual, instantaneamente, aguçou a instinto investigativo de milhares de cientistas acerca do assunto, e ainda lhe propiciou o Prêmio Nobel de Física em 1901.

Experimentalmente, Röntgen observava o fenômeno da luminescência quando ocorriam descargas elétricas em tubos de raios catódicos. Vale salientar, que o tubo de raios catódicos era coberto por cartolina negra, e ainda, que não existia a possibilidade de raios escaparem do tubo. Num dia em que a sala do laboratório estava escura, Röentgen notou que a folha de papel, usada como tela e tratada com uma substância química fluorescente (platinocianeto de bário), emitia luz e brilhava.

Intrigado, Röentgen inverteu o papel, de modo que a parte da folha sem a substância luminescente ficasse virada diretamente para o tubo. Entretanto, a tela continuava a brilhar e emitir luz. Mais tarde, afastou a tela do tubo o que não alterou o resultado do experimento. Além disso, colocou objetos entre a tela e o tubo: porém, o resultado era sempre o mesmo. Acidentalmente, quando a mão do físico escorregou perto da válvula, ele viu seus ossos na tela, conforme figura 1.

Apesar da existência da foto que permitia enxergar os ossos da mão do físico o que tornava a experiência irrefutável, Röntgen não conseguiu explicar algumas questões como: qual era a natureza do raio-X, o porquê da fluorescência do vidro e como eles eram produzidos pela descarga no tubo.

As hipóteses e conclusões consolidadas na experiência de Röntgen foram expostas numa sessão da Academia Francesa de Ciências em 1896. Entretanto, Henri Poincaré havia recebido anteriormente uma separata da experiência do raio-X , e a partir de então também formulou hipóteses como, por exemplo, sobre a fluorescência do vidro:

“Portanto, é o vidro que emite os raios de Röntgen, e ele se torna fluorescente ao emiti-los. Podemos nos perguntar se todos os corpos que possuem uma fluorescência suficientemente intensa não emitiriam os raios- X de Röntgen, além de raios luminosos, seja qual for a causa de sua fluorescência. Nesse caso, o fenômeno não estaria associado a uma causa elétrica. Isso não é muito provável, mas é possível, e sem dúvida é fácil de verificar” (POINCARÉ, 1896, p. 56).

Figura 1: A figura acima reproduz o experimento de Röntgen. Entre os catodos do tubo de vidro, os raios catódicos são acelerados inicialmente com tensão de até 10kV, e em seguida, são bruscamente freados (colisão de raios com o alvo) Conseqüente, ocorre emissão de radiação eletromagnética , de pequeno comprimento de onda e alta freqüência. (http://nupic.incubadora.fapesp.br/portal/projetos/fisica-moderna/fisica-das-particulas/textos/Textos_do_bloco_I.pdf). Acesso em 01 de junho de 2008.

Ainda durante a sessão, resultados de experiências embasadas na “conjetura de Poincaré” foram apresentados. Uma delas, desenvolvida por Charles Henry, testou se o sulfeto de zinco fosforescente era capaz de aumentar o efeito do raio-X pelos tubos. Suas observações o levaram a concluir que sim. Então, ele cobriu parte do material metálico com uma camada de sulfeto de zinco e observou que a radiografia desse objeto era mais nítida na região abaixo do material fosforescente. Mais tarde, Henry testou a emissão de raio-X pela substância estimulada pela luz. Dessa maneira, cobriu o objeto pela substância que estava tendo sua fosforescência excitada pela queima de magnésio. Logo, a conjetura de Poincaré era mais uma vez confirmada.

No mesmo período, paralelamente, Gaston Henri Niewenglowsk utilizou o sulfeto de cálcio - substância também fluorescente - que quando excitada pela luz solar, era capaz de marcar a chapa fotográfica atravessando meios opacos. Além disso, comprovou que mesmo depois de excitada pela luz solar, já num ambiente escuro, a substância continuava a emitir raios.

Em outros lugares do mundo, outros cientistas também pesquisavam a mesma área da ciência. Thompson, no Canadá, atingiu os mesmos resultados da “conjetura de Poincaré”, porém, quando a testou não obteve o mesmo resultado.

Em 1896, Antoine Henri Becquerel que já pesquisava sobre luminescência, apresentou seu trabalho na Academia Francesa de Ciências, além de demonstrar concordância em relação a resultados de Niewenglowski e Poincaré. Logo, o primeiro experimento de Becquerel é semelhante aos anteriores:

“Realizei o seguinte experimento com sulfato duplo de urânio e potássio, dos quais possuo alguns cristais que formam uma crosta fina, transparente. Uma chapa fotográfica de Lumière é embrulhada em duas folhas de papel preto muito espessas, de tal modo que a chapa não se escurece mesmo quando exposta ao Sol durante um dia inteiro. Um floco da substância fosforescente é colocado sobre o papel, fora dele, e o conjunto é exposto ao Sol por várias horas. Quando a chapa fotográfica é revelada, aparece a silhueta da substância fosforescente em preto, no negativo. Se for colocada uma moeda ou uma chapa metálica furada entre a substância fosforescente e o papel, suas imagens serão visíveis no negativo. O mesmo experimento pode ser repetido colocando uma placa fina de vidro entre a substância fosforescente e o papel. Isso exclui a possibilidade de qualquer ação química por vapores que pudessem escapar da substância quando ela é aquecida pelos raios do Sol. É possível concluir desses experimentos que esta substância fosforescente emite radiações que atravessam um papel opaco à luz e reduzem os sais de prata “(BECQUEREL, 1896a).

Já no segundo experimento de Becquerel, o qual lhe conferiu a descoberta da radioatividade, observou-se que os efeitos produzidos pelas substâncias utilizadas –sulfato duplo de urânio e potássio – eram diferentes: as radiações eram distintas, e ainda que as radiações penetrantes ocorriam apenas quando se recebia luz solar, direta ou indiretamente.

“Insistirei particularmente sobre o seguinte fato, que me parece muito importante e estranho ao domínio dos fenômenos que se esperaria observar. Os mesmos flocos cristalinos, colocados junto às chapas fotográficas, nas mesmas condições, isolados pelos mesmos anteparos, mas sem receber excitação pela incidência de radiação e mantidos no escuro, ainda produzem as mesmas impressões fotográficas. Este foi o modo pelo qual fui levado a fazer essas observações: entre os experimentos precedentes, alguns foram preparados na quarta-feira, 26, e na quinta-feira, 27 de fevereiro; e como, nesses dias, o Sol apareceu apenas de modo intermitente, guardei os experimentos que havia preparado e coloquei as chapas com seus envoltórios na obscuridade da gaveta de um móvel, deixando os flocos de sal de urânio em seu lugar. Como o Sol não apareceu novamente nos dias seguintes, no dia 1 de março eu revelei as chapas fotográficas, esperando encontrar imagens muito fracas Pelo contrário, as silhuetas apareceram com uma forte intensidade. Eu logo pensei que a ação devia ter continuado na obscuridade [...]” (BECQUEREL, 1896b).

Na verdade, Becquerel esperava um efeito fraco uma vez que a fosforescência visível diminuía muito rapidamente no escuro. Portanto, a explicação para a diferença de duração de cores emitidas por uma dada substância fosforescente é que em alguns casos, como o comprimento de onda é maior, a duração é menor, e vice-versa. Conseqüentemente, a cor observável por uma substância fosforescente era mutável no escuro no decorrer do tempo. Então, essa fosforescência visível de curta duração poderia ser acompanhada por uma invisível de longa duração, com emissão de radiação penetrante.

“Uma hipótese que surge de modo natural à mente é a suposição de que essas radiações, cujo efeito possui uma forte analogia com as produzidas pelas radiações estudadas pelos senhores Lenard e Röntgen, poderiam ser radiações invisíveis emitidas por fosforescência com uma persistência infinitamente maior do que a persistência das radiações luminosas emitidas por esses corpos. No entanto, os experimentos relatados, embora não sejam contrários a essa hipótese, não nos permitem formulá-la.” (BECQUEREL, 1896b, p. 503)

Despertada a onda de pesquisar esses novos conceitos, destacou-se no cenário científico o casal Marie e Pierre Curie que direcionaram seus estudos em materiais que produzissem essa radiação. Segundo a hipótese deles, alguns materiais eram bons emissores de radiação, como por exemplo, a pechblenda, minério que tinha maior capacidade de emitir radiação que o urânio extraído da mesma.

Após muitos estudos, o casal constatou que o minério estudado era constituído por algum elemento capaz de liberar mais energia que o urânio. Dessa forma, em 1898, foram comunicados ao mundo dois novos elementos químicos: o polônio e o rádio. O casal Curie foi capaz de isolar esses dois novos elementos através da concentração de várias classes do minério.

Apesar de terem criado e difundido o termo radioatividade, o qual designa processo de liberação de energia espontaneamente, eles nunca patentearam o novo processo descoberto. E, em 1903, juntamente com Becquerel, ganharam o Prêmio Nobel de Física.

4. APLICAÇÕES

Existem várias aplicações para a radioatividade e elas são divididas em três grandes grupos de utilização, se formos apenas considerar fins pacíficos. Isso porque o conhecimento das reações nucleares pode resultar na aplicação de fins não pacíficos, como a criação de bombas atômicas, similares àquelas outrora arremessadas contra as cidades japonesas de Yroshima e Nagasaki, durante a Segunda Grande Guerra Mundial. Esses grupos são: médico, industrial e científico.

4.1 Medicina

Na medicina, a utilização da radioatividade já é amplamente praticada desde antes do episódio das bombas referidas logo acima. Os conhecimentos médicos, aliados ao conhecimento da Engenharia, resultaram ao longo dos anos, na criação de vários equipamentos que utilizam desse processo para diagnosticar e tratar doenças, como é o caso do câncer. Esses equipamentos se valem da facilidade de penetração e definição do feixe emitido para o tratamento de tumores e doenças de tecidos em geral. Outros procedimentos são adotados pela medicina. São eles:

4.1.1 Esterilização de materiais

“Agulhas, fios de sutura e outros produtos utilizados na área médica são esterilizados pela radiação. Os raios gama (60Co) desencadeiam reações químicas que matam os microorganismos presentes nesses produtos e os impedem de se reproduzir ” http://www.farmacia.ufmg.br/nuclear/radioatividade.htm. Data de acesso: 28/05/2008

Figura 2 – Esterilização de materiais em laboratório utilizando a radioatividade.
FONTE: www.farmacia.ufmg.brnuclearfotos.htm. Data de acesso: 29/05/2008

4.1.2 Radioterapia

“A Radioterapia é muito utilizada para o tratamento do câncer de mama, de garganta, de útero, etc. A fonte de radiação é geralmente um acelerador linear, que emite feixes de raios que alcançam o tumor após atravessar diferentes tecidos. Dessa forma, órgãos e tecidos sadios, situados no trajeto dos raios estão sujeitos aos efeitos da radiação”
http://www.farmacia.ufmg.br/nuclear/radioatividade.htm. Data de acesso: 28/05/2008

4.1.3 Braquiterapia

“Braquiterapia é uma forma de radioterapia em que materiais radioativos são implantados nas proximidades do tumor. A palavra braquiterapia origina-se do grego (brachys = junto, próximo) e define uma modalidade de tratamento em que doses de radiação são liberadas para atacar as células tumorais, sem que um grande número de células sadias seja afetado. Estes implantes podem ser temporários ou permanentes.”
http://www.farmacia.ufmg.br/nuclear/radioatividade.htm. Data de acesso: 28/05/2008

4.1.4 Radioimunoensaio (RIE)

“O desenvolvimento da técnica do radioimunoensaio proporcionou um grande avanço em muitas áreas da medicina. Essa técnica associa sensibilidade e especificidade, permitindo a quantificação exata de uma grande variedade de compostos com importância biológica. Dentre estes compostos destacam-se os hormônios, peptídeos, vitaminas e medicamentos. A sensibilidade desta técnica permite dosar substâncias em concentrações da ordem de ng/mL, pg/mL e até fg/mL. Antes do advento desta técnica muitas substâncias eram dosadas por meio de ensaios biológicos, em muitos casos não era possível realizar o doseamento.”
http://www.farmacia.ufmg.br/nuclear/radioatividade.htm. Data de acesso: 28/05/2008

4.1.5 Ensaios imunoradiométricos (IRMA)

“Os marcadores tumorais são substâncias que funcionam como indicadores da presença de câncer. Estes podem ser encontrados no tumor, no sangue ou em outro fluido biológico (urina, líquor, derrame pleural, etc.). Os marcadores tumorais normalmente são produzidos por células dos tecidos originais, que em condições de malignidade passam a produzi-los em quantidades elevadas.

Para dosar estes marcadores, técnicas radiométricas podem ser utilizadas empregando anticorpos marcados com iodo-125.

Exemplos de marcadores tumorais:

-Antígeno Carcinoembriônico (CEA) - câncer de colonretal
-Antígeno CA 15-3 - câncer metastático de mama
-Antígeno CA 125 – câncer ovariano
-Antígeno Específico Prostático (PSA) – câncer de próstata ou hipertrofia benigna de próstata”

http://www.farmacia.ufmg.br/nuclear/radioatividade.htm. Data de acesso: 28/05/2008

4.2Indústria

No segmento industrial, o conhecimento da radioatividade é responsável pela produção de energia elétrica nos Reatores Nucleares, energia esta da qual a humanidade cada vez mais necessita. A energia pode ser aproveitada através de dois processos distintos: fissão do núcleo atômico, ou seja, a quebra do núcleo, tendo como matérias de base, elementos radioativos como o urânio e fusão do núcleo, na qual, a união de dois ou mais núcleos ocorre, visando à criação de um novo núcleo.

Figura 3 – Usina Nuclear Angra I
FONTE: www.farm1.static.flickr.com81259198101_85025b1a19.jpgv=0.
Data de acesso: 30/05/2008

As partículas de cargas positivas (prótons), situadas no interior do núcleo dos átomos, tendem a se repelirem pela lei de repulsão de cargas iguais. Para mantê-las coesas no núcleo e juntas aos nêutrons, observa-se a realização de um trabalho e conseqüentemente a existência de uma energia associada, denominada energia nuclear.

“Alguns isótopos de certos elementos apresentam a capacidade de, através de reações nucleares, emitirem energia durante o processo. Baseia-se no princípio que nas reações nucleares ocorre uma transformação de massa em energia. A reação nuclear é a modificação da composição do núcleo atômico de um elemento podendo transformar-se em outro ou outros elementos. Esse processo ocorre espontaneamente em alguns elementos; em outros se deve provocar a reação mediante técnicas de bombardeamento de nêutrons ou outras.” http://www.biodieselbr.com/energia/nuclear/energianuclear.htm. Data de acesso: 29/05/2008

Além da produção de energia, os efeitos da radioatividade podem também auxiliar no rastreamento de falhas em tubulações, provenientes de rupturas mecânicas (trincas) ou corrosões. São também amplamente utilizados em controle de processos de produção e na conservação de alimentos, através da eliminação de fungos, larvas de insetos e bactérias presentes nos alimentos e que são sensíveis a tais efeitos.

Figura 4 – Comparativo entre o antes (à esquerda) e o depois (à direita) da exposição dos morangos à radiação.
FONTE: www.farmacia.ufmg.brnuclearfotos.htm. Data de acesso: 29/05/2008

4.3Produção Científica

No âmbito científico, a radioatividade auxilia no aperfeiçoamento do conhecimento sobre a estrutura da matéria em níveis moleculares, atômicos e subatômicos. Utilizando-se os efeitos da radiação, a engenharia projeta equipamentos com mecanismos de aceleração de partículas e bombardeamento de átomos, possibilitando à ciência compreender com mais clareza os fenômenos invisíveis a olho nu e que são responsáveis pelo advento tecnológico que a humanidade experimenta atualmente.

Além disso, os efeitos radioativos são utilizados na análise de reações químicas e biológicas em eletrônica, geologia, ciência espacial etc. A radioatividade também auxilia os agricultores a produzirem cereais mais resistentes e aos agrônomos, ajuda na análise de absorção de CO2 durante o processo de fotossíntese das plantas.

Outra aplicação associada é verificação da idade de fósseis e rochas de períodos longínquos, através do C14.

5. CUIDADOS

“A cada instante estamos sendo atravessados por partículas subatômicas que podem (ou não) causar algum tipo de dano ao nosso corpo, e sem que tenhamos consciência disso. Na verdade, a quantidade de células de nosso corpo que sofre alterações ou é destruída, é muito pequena, de modo que, pela radiação natural a que estamos sujeitos, somente em casos muito raros podem ocorrer danos.”
http://www.sabereletronica.com.br/secoes/leitura/788. Data de acesso: 28/05/2008

A todo instante, a Terra recebe partículas radioativas vindas do espaço, provenientes de reações cósmicas ocorridas em outras galáxias ou no interior de estrelas. As próprias formações rochosas formadas na superfície terrestre possuem, em sua composição, uma concentração, mesmo que desprezível, de materiais radioativos. Isso evidencia que somos expostos intermitentemente aos efeitos da radioatividade natural.

Em se tratando da utilização em média ou larga escala de elementos radioativos, para fins de produção de energia, por exemplo, deve-se manter extremo cuidado no manuseio desses materiais. Apesar do grande investimento em segurança nas Usinas Nucleares e capacitação dos profissionais da área, o risco de vazamento nos reatores ou explosões não podem ser ignorados.

Os efeitos de um acidente nuclear são percebidos em um raio de até quilômetros de distância do local e eles perduram por várias gerações. Um trágico exemplo desse tipo de acontecimento a ser detalhado mais a frente é a explosão de Chernobyl, na Ucrânia, onde milhares de pessoas adquiriram doenças estranhas, atribuídas à radioatividade advinda da explosão.

Outra preocupação pertinente em relação ao uso das propriedades radioativas dos materiais é a produção do chamado lixo radioativo.

“Os principais componentes que compõem o lixo radioativo produzido nas usinas nucleares, são os produtos da fissão nuclear que ocorre no reator. Após anos de uso de certa quantidade de Urânio, o combustível inicial vai se transformando em outros produtos químicos, como criptônio, bário, césio, etc., que não tem utilidade na usina. Ferramentas, roupas, sapatilhas, luvas e tudo o que esteve em contato direto com esses produtos, é classificado como lixo radioativo.”
http://www.infoescola.com/fisica/principios-da-usina-nuclear. Data de acesso:29/05/2008

A contaminação causada pelo lixo radioativo também pode durar muito tempo. Segundo estudos, ela pode chegar a 100 mil anos! Esse tipo de rejeito deve ser armazenado por milhares de anos, mesmo após a desativação de uma Usina Nuclear. Esse processo encarece e pode inviabilizar potencialmente a utilização e produção desse tipo de energia.

É necessário ressaltar aqui que existem atualmente, métodos altamente seguros de armazenamento do lixo nuclear e processos muito controlados para a produção da Energia Nuclear. Em países como os EUA e Japão, onde os recursos hídricos não são suficientes para suprir a demanda energética, a energia advinda dos reatores atômicos é uma boa alternativa, por ter seu custo final mais agradável aos cofres públicos e privados, se comparado com outras formas de energia, como a solar e eólica.

Figura 5– Recolhimento do lixo nuclear. FONTE: www.klickeducacao.com.brKlick_Portal EnciclopediaimagesRa123354336.jpg. Data de acesso: 03/06/2008.

Outro inconveniente da radioatividade é a ionização do ar. Quando exposto à radiação, o ar tende a ionizar-se e tornar-se assim, um condutor de eletricidade, o que pode prejudicar sistemas elétricos inteiros, como causar prejuízos à saúde humana.

6. ACIDENTES MARCANTES RELACIOANDOS COM A RADIOATIVIDADE

Embora a opinião pública algumas vezes seja equivocada em relação a radioatividade, a primeira não deixa de ter certa razão. Isso é reflexo de acidentes terríveis que mataram milhares de pessoas, e ainda provocaram doenças em demais que padeceram desse mal. É certo que tamanha dor produziu na sociedade certa aversão em relação a este tema, o que justifica a condenação do mesmo sem conhecimento sobre o assunto. É por isso que o tema gera tanta polêmica e repercussão até os dias atuais.

Nesse tópico vamos relembrar dois maiores acidentes, de repercussão mundial que nos leva ter sempre em mente que os cuidados e o esclarecimento com determinado tema é fundamental para que os mesmo não repitam.

Em 1986, situada no contexto da Guerra Fria, a atual Ucrânia, país do leste europeu que naquele período era um país satélite da União Soviética, apresentava usinas nucleares como os demais países. A corrida armamentista obrigava os governos a investir maciçamente na indústria bélica e no desenvolvimento de novas tecnologias.

Na usina nuclear de Chernobyl, durante testes de cotidianos, várias normas de segurança foram desrespeitadas, e a reação em cadeia no reator atingiu níveis incontroláveis. Houve a falha do sistema de circulação de água, responsável pelo resfriamento do núcleo do reator, o que gerou um superaquecimento que produziu uma grande explosão.

Cidades ao redor de Chernobyl foram evacuadas devido a exposição à radiação. Imediatamente, 31 pessoas foram mortas instantaneamente e 130.000 foram evacuadas da região. Sabe-se que esse acidente liberou na atmosfera 400 vezes de material radioativo que a bomba de Hiroshima.

O governo russo tentou esconder do mundo o que realmente tinha acontecido. Entretanto, foram detectados na Europa níveis altíssimos de radioatividade o que levou a França a investigar e descobrir a tragédia. Segue abaixo o pronunciamento do governante russo sobre o ocorrido:

"Boa tarde, meus camaradas. Todos vocês sabem que houve um inacreditável erro – o acidente na usina nuclear de Chernobyl. Ele afetou duramente o povo soviético, e chocou a comunidade internacional. Pela primeira vez, nós confrontamos a força real da energia nuclear fora de controle.” (Mikhail Gorbachev)

Atualmente, existe em funcionamento Central Nuclear de Chernobyl. Logo após o acidente, os soldados russos construíram um “sarcófago”, isto é, um caixão de cimento a fim de que mais radiações não fossem liberadas.

Embora as usinas do Leste Europeu possuíssem padrão de segurança, a de Chernobyl não dispunha de envoltórios de contenção de radioatividade em situações de acidentes.

Figura 6: A Central de Chernobyl após o fatídico acidente. Fonte: http://www.nuctec.com.br/educacional/acidentes.html. Acesso em: 3 de junho de 2008.

Outro fato marcante aconteceu em 1987, em Goiás. No prédio desativado do Instituto Goiano de Radioterapia, foi deixado um aparelho de radioterapia que continha o elemento césio-137. Dois homens, que ali procuravam por sucata para revender levaram o aparelho e o venderam ao dono de um ferro-velho.

Durante a desmontagem do aparelho, foi encontrado um pó branco que apresentava brilho azulado no escuro. Tal pó, o cloreto de césio, passou então a ser exposto e distribuído pelo dono do ferro velho o qual estava encantado com esse efeito.

Os primeiros sintomas apareceram logo após o contato direto com o pó: tonturas, náuseas, vômitos e diarréias. Foi diagnosticada contaminação radioativa logo depois que a esposa do dono do ferro velho levou parte do aparelho desmontado até a sede da Vigilância Sanitária.

Segundo a Comissão Nacional de Energia Nuclear, 112.800 pessoas foram monitoradas, 129 apresentaram contaminação interna e externa, quatro foram mortas.

Dois casos de mesma natureza, mas basicamente pelos mesmos motivos consolidaram tais tragédias. O primeiro simplesmente por negligência, e o segundo também por negligência acompanhada de desinformação.

7. INTERAÇÃO RADIOATIVIDADE versus HOMEM

A exposição do homem a radioatividade remonta seus ancestrais que escolheram viver em cavernas, cobrindo as entradas com peles de animais. Ao fechar a entrada, o homem impediu que houvesse a renovação do ar nesses ambientes, aumentando o nível de radônio - produzido durante o decaimento do urânio.

Mesmo que tenha ocorrido evolução, ainda sim temos uma situação semelhante: mineiros que trabalham em galerias subterrâneas. As rochas, compostas por urânio, liberam níveis de radônio no ambiente. Se o local não apresentar um sistema de ventilação eficaz, os trabalhadores podem estar sujeitos a altos níveis de radiação.

Já as indústrias do ciclo do combustível nuclear, ou seja, lavra e beneficiamento do minério, enriquecimento do urânio, reatores e plantas de reprocessamento, são submetidas a um rigoroso processo de controle e licenciamento. Todo esse controle na produção é justificado pela percepção, muitas vezes, equivocada da população quanto aos riscos e ameaças da energia nuclear.

Ainda englobando um tema que ganha cada vez mais espaço na mídia, e até mesmo desperta o interesse da população, é a real possibilidade de exposição a radiação por elementos que não sejam radioativos. É inegável que determinados elementos usados na indústrias não-nucleares, ou como matéria-prima ou como lixo, apresentam elevada radioatividade natural. Tais produtos são chamados NORM (natural occurring radioactive materials, cuja tradução é materiais em que a radioatividade ocorre naturalmente). Muitas vezes, a própria cadeia produtiva do elemento é a responsável pelo aumento da radioatividade do mesmo, e pela exposição de trabalhadores as emissões.

O desenvolvimento de estudos científicos acerca dos impactos da radioatividade associados às indústrias não-nucleares é fundamentado na hipótese de que mesmo havendo desconhecimento da sociedade em função dessas atividades, pode estar havendo exposição indevida e inconsciente a radiação. Em consideração a essa possibilidade, a iniciativa pública e privada tem investido maciçamente em pesquisa para ter a real noção da extensão da questão.

Enfim, com o desenvolvimento da pesquisa, amplia-se a possibilidade de criação de normas e regras no processo da cadeia produtiva, na recuperação de ambientes já afetados por radioatividades, e ainda sobre os materiais a serem usados. Na verdade, é uma maneira que obriga a indústria a buscar alternativas, isto é, que invista em tecnologia para participar ativamente do desenvolvimento sustentável.

8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

http://nupic.incubadora.fapesp.br/portal/projetos/fisica-moderna/fisica-das-particulas/textos/Textos_do_bloco_I.pdf. Acesso em 29 de maio de 2008.

http://www.grupoescolar.com/materia/descoberta_da_radioatividade.html. Acesso em 29 de maio de 2008

http://ghtc.ifi.unicamp.br/pdf/ram-106.pdf. Acesso em 29 de maio de 2008

http://www.drashirleydecampos.com.br/noticias/2136. Acesso em 03 de junho de 2008

http://www.nuctec.com.br/educacional/acidentes.html . Acesso em 03 de junho de 2008.

http://www.uff.br/cienciaambiental/mv/mv3/MV3(2)78-89.pdf. Acesso em 28 de maio de 2008

http://revista.fapemig.br/materia.php?id=118 Acesso em 29 de maio de 2008

http://www.cefetsc.edu.br/~ radiologia/downloads/material_ didatico_ detectores.pdf Acesso em 28 de maio de 2008

http://www.fismed.ufrgs.br/sumar_det.htm acesso em 02 de junho de 2008

http://www.tecnologiaradiologica.com/materia_deteccao.htm Acesso em 02 de junho de 2008

http://www.biodieselbr.com/energia/nuclear/energia-nuclear.htm Acesso em 28 de maio de 2008

http://www.ubatubaemrevista.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=204:angra-3-vale-a pena&catid=108:
atualidades&Itemid=296 Acesso em 30 de maio de 2008

HALLIDAY, DAVID; RESNICK, ROBERT; WALKER, JEARL. Fundamentos de Física – Volume 3. Sexta edição. LTC editora.


O autor deste trabalho

Lucas Souza e Silva é acadêmico do oitavo período do curso de Engenharia Eletrônica e de Telecomunicação da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) e membro estudante do IEEE (Institute of Electrical and Electronic Engineers). Têm interesse em pesquisa científica e tecnológica, atuando em projetos que envolvem o desenvolvimento de plataformas e módulos de processamento de vídeo digital em tempo real, visando o menor consumo de energia, aliando flexibilidade e acessibilidade.

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